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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nacional, porém híbrido

Por Enio Vieira

Cazuza pertencia à fina flor da elite carioca, bem zona sul. As letras falavam de um Brasil arrasado da época, de “só as mães são felizes” e de garotos que “dão autógrafos em talões de cheque”. Tanto Cazuza, como Russo, viveram intensamente o período e morreram vítimas da Aids, assumindo que sempre gostaram de “meninos e meninas”.

Cazuza

Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou.
Chico Buarque (2004)

As guitarras elétricas de "Alegria, alegria", de Caetano Veloso, assustaram os admiradores da jovem MPB no final dos anos 1960. Alguns disseram que se tratava de uma perversão da canção nacional, pois o compositor baiano teria se afastado do genuíno som brasileiro. Na época, poucos se lembraram de que essa autenticidade brasileira, sintetizada pelo samba, só havia sido firmada três décadas antes, no governo Vargas (1930-1945). Questionava-se, isso sim, uma tradição inventada, por contradição, por ideais modernizadores. Desde então, era como se os portugueses tivessem encontrado sambistas, e não índios, ao desembarcar por aqui em 1500.

As críticas a Caetano repetiram as censuras feitas a Bob Dylan, quando este agregou o formato guitarra-baixo-bateria a seu estilo já inconfundível de voz e violão norte-americanos — outra tradição construída. Hoje, podemos criticar a estreiteza dos ataques. Mas eles faziam muito sentido naquele período, no Brasil, que buscou o tipo ideal do "homem simples", o popular e, principalmente, uma identidade nacional. A MPB era vista como instrumento de aproximação de classes sociais, um ponto de encontro de letrados e iletrados. O que pouco se via era que o país e seus músicos já eram engolidos pela máquina cultural do mercado.

A jovem guarda pode ser considerada o berço do pop brasileiro, no sentido de um campo cultural com produtores, veículos de divulgação e público. O próprio nome Jovem Guarda vinha de empréstimo de um programa de televisão. Roberto Carlos, Wanderléa, Erasmo Carlos, Os Incríveis e Golden Boys eram as figuras de uma nova música que falava à juventude, com rocks leves e romantismo. O Brasil ainda era aquele do começo da década de 1960, naquela virada do otimismo desenvolvimentista anterior ao golpe militar de 1964. O crescente obscurecimento chega ao auge quatro anos depois com as regras baixadas pelo AI-5 (prisão, exílio, tortura, censura).

A rapaziada da Jovem Guarda vinha avançando para outros sons, assim como ocorria com Beatles, Rolling Stones e Beach Boys lá pelo ano de 1966. O pop incluiu novos instrumentos e foi além do padrão de canções de três minutos (que seguiam o formato duas estrofes, um refrão, mais uma estrofe, um solo de guitarra, repete-se o refrão e um coro termina a música). Os maiores responsáveis pela experimentação brasileira foram os Mutantes, que reunia a mocinha sardenta Rita Lee e dois irmãos de franjinha, Arnaldo e Sérgio Baptista. O pop local atinge a maioridade e dialoga com a MPB da época e o rock feito pelo mundo afora.

Tempo das viagens

A trajetória dos Mutantes foi marcante pelo experimentalismo. Bem no espírito da época, eles foram morar juntos na Serra da Cantareira, na cidade de São Paulo. O isolamento permitia viver e respirar música o tempo todo, logicamente num ambiente de contracultura. Também pesava a favor a convivência com os baianos do Tropicalismo e figuras como Glauber Rocha, José Agrippino de Paula e Hélio Oiticica. Percebe-se que havia um caldeirão cultural que colocava a produção brasileira no circuito mundial de bens culturais e contrastava com a estreiteza da ditadura militar — esta carregou valores nacionais, da família e da propriedade.

O espírito contracultural viabilizou um passo adiante no pop rock brasileiro no aparecimento de Secos e Molhados e de Raul Seixas. Os primeiros eram liderados por Ney Matagrosso e usavam bem a teatralidade nos shows. Foi um êxito que demoraria a se repetir no cenário local, em músicas como “Rosa de Hiroshima”, “Sangue latino” e “Flores astrais”. O segundo vinha da Bahia e se dizia herdeiro do espírito do rock’n’roll dos anos 1950. O que Raul soube fazer de melhor foi juntar letras que evocavam uma “sociedade alternativa” (em parceria com Paulo Coelho, depois um escritor de sucesso) e sons de rock acústico dos Estados Unidos.

Talvez por conta da ditadura e das mudanças sociais nos anos 1970, houve uma aproximação de várias áreas do campo cultural. No caso do pop, a poesia marginal ou chamada de mimeógrafo foi chegando mais perto e fez parcerias que se desenvolveriam para valer na década seguinte. Poetas como Chacal, Cascaso e até mesmo Paulo Leminski fizeram letras para grandes figuras da MPB. Mas foi Bernardo Vilhena quem mais escreveu para o pop rock do Rio de Janeiro. Suas letras, como “Vida bandida”, foram cantadas por Lobão e Cazuza. Essa proximidade elevou o patamar das palavras cantadas pelos roqueiros que, hoje, guardam distância de poesia.

Influenciado pela poesia marginal e pelo teatro de grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone, o ambiente fértil do Rio de Janeiro propiciou a explosão do conjunto de pop rock Blitz, em 1982. Já distante da canção de protesto da década anterior, o grupo apostou num som “new wave” dos Estados Unidos e em letras com humor e referências à sexualidade. A ditadura militar, enfim, dava os últimos suspiros. Mas não sem antes proibir duas faixas do LP da Blitz. Os vinis foram riscados manualmente, apenas nas duas últimas canções, por ordem dos censores. Emissoras de rádio estavam impedidas de veicular as músicas com trocadilhos que remetiam ao sexo.

Pós-ditadura

O final da ditadura militar coincidiu com a ascensão de grupos como Barão Vermelho, Gang 90 (liderado por Júlio Barroso, grande poeta e que se suicidou), RPM, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso e Camisa de Vênus. As músicas falavam de “louras geladas”, “a gente somos inútil”, “nosso louco amor” e outras egotrips — esta uma expressão bem da época para enfatizar o individualismo, em contraponto ao ideal coletivo da turma da Era de Aquários. Com o lançamento da revista Bizz em 1985 e de programas de vídeo clip na televisão, o mercado brasileiro passava a ter os ingredientes de uma cultura voltada aos jovens, com sons feitos por e para eles.

Dois trabalhos significativos da época vieram do grupo Legião Urbana, liderado por Renato Russo, e do compositor Cazuza, ex-vocalista do Barão Vermelho. Foram as vozes mais incisivas na observação da segunda metade dos anos 1980 no país. Surgido em Brasília, o Legião absorve a influência do rock inglês de então (Gang of Four, The Smiths) e junta a isso uma nova forma de fazer canções. Não há mais rimas, mas apenas o “eu” isolado no mundo como personagem das letras. Criam-se multidões de seguidores. As músicas falavam desde os “burgueses sem religião” até a história de um nordestino que migra para Brasília.

Cazuza pertencia à fina flor da elite carioca, bem zona sul. O espírito livre da poesia marginal se aliava nele ao rock clássico e ao samba, na linhagem de Noel Rosa. As letras falavam de um Brasil arrasado da época, de “só as mães são felizes” e de garotos que “dão autógrafos em talões de cheque”. Tanto Cazuza, como Russo, viveram intensamente o período e morreram vítimas da Aids, assumindo que sempre gostaram de “meninos e meninas”. Outro parceiro dessa viagem de captar os anos 1980 foi o escritor Caio Fernando Abreu, que morreu da mesma doença e imaginou outras maneiras de viver a década perdida.

Os anos da pós-ditadura brasileira possibilitaram boas experimentações musicais. Em São Paulo, havia Fellini, Patife Band, Akira S & as garotas que erraram e Mercenárias, que abriram um mercado alternativo para o pop rock brasileiro. O Ira! seguia um rock mais clássico, e os Titãs flertavam com a poesia concreta por meio das letras de Arnaldo Antunes. Os punks tinham representantes nos Inocentes e nos Ratos de Porão. A cena paulista tinha espaço até para o Violeta de Outono, altamente influenciado pelo rock inglês da época. Percebe-se uma diversidade de sons e estilos que levaram o pop rock um degrau acima. .

Outras cidades também apresentam bons nomes que realizaram trabalhos fecundos. No Rio de Janeiro, estavam os Picassos Falsos, que tinha pitadas de samba e Jimi Hendrix. A cena gaúcha gerou os tradicionais Engenheiros do Hawaii e o grupo antecipador de estilos De Falla, Depois, viriam os inclassificáveis do Graforréia Xilarmônica. Os mineiros contribuíram com Sexo Explícito (embrião do Pato Fu) e o fenômeno do Sepultura, um conjunto de metal que ganhou o mundo a partir de Belo Horizonte. Para um período socialmente medíocre, aqueles anos foram essenciais para consolidar o mercado pop no Brasil.

Pop-up nas margens

O cenário dos 1990 foi marcado por uma abertura para as margens da produção musical. As inovações tecnológicas permitiram, sobretudo por meio da informática, o gradativo crescimento de um mercado alternativo do pop brasileiro. Gravadoras fora dos grandes centros (Rio de Janeiro e São Paulo) começaram a trabalhar com distribuição nacional. Chegou-se ao limite com a criação de um vasto mercado pirata, a preços muito baixos e com grande velocidade de divulgação de músicas e cantores. E a internet vem pulverizando essa divulgação de novos nomes, como atesta o surgimento de Malu Magalhães, uma adolescente que usava a rede social MySpace.

O descentramento musical viabilizou o movimento do manguebeat de Recife. Mundo Livre e Chico Science & Nação Zumbi utilizaram o hibridismo para aliar o maracatu pernambucano ao rock inglês e à eletrônica. Retorna o sentimento antropofágico, tropicalista, de deglutir influências estrangeiras e filtrá-las na tradição. Com isso, chega-se a um novo som. Anos antes, em 1986 precisamente, o estilo híbrido se manifestou na música “Alagados”, dos Paralamas do Sucesso. A redescoberta do Brasil está também nos brasilienses dos Raimundos, que misturaram o punk rock a letras debochadas do brega e do forró nordestino.

As margens produziram nos anos 1990 o fenômeno do rap nas periferias das metrópoles brasileiras. O êxito maior veio com os paulistanos dos Racionais MC. Eles rejeitam os meios tradicionais de divulgação da música e explodem com a pirataria de CDs vendidos por poucos reais a cada esquina do país. A periferia do Rio de Janeiro populariza o funk entre a garotada de classe média. De repente, os pobres começam a produzir uma música feita por eles e para eles mesmos — seduzindo os mais ricos. A partir do caldeirão do rap, cresceram pelo lado pop os excelentes O Rappa e Marcelo D2, que fazem o encontro do hip hop com o rock e o samba.

Tais manifestações periféricas são viáveis graças à tecnologia nova de gravação e distribuição. Ficou muito barato gravar um CD, vendê-lo e realizar a divulgação pela internet. É desse esquema que nasce um grupo como os cuiabanos do Vanguart, que mescla a tradição pantaneira ao folk rock de Bob Dylan. Esse é o mais recente estágio do pop brasileiro que ganhou maioridade com os Mutantes na década de 1960, mostrou uma tremenda inquietação na pós-ditadura militar e agora vem se fragmentando em inúmeros sons pelos downloads na rede mundial de computadores.




Um comentário:

Toninhobira disse...

Grato Soninha por trazer este post rico de informações,num belo relato da musica no Brasil.Boa partilha amiga.
Carinhoso abraço.
Bjo.

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